Marte sofreu perda precoce da maior parte da atmosfera
RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO
Quando era um jovem com menos de 500 milhões de anos, Marte sofreu uma
catástrofe que desligou seu campo magnético, deixou-o exposto a fortes
ventos solares e o fez perder quase toda a sua atmosfera.
Essa é a história mais plausível para a infância do planeta, de acordo com as descobertas mais recentes do jipe-robô Curiosity.
A conclusão está em dois estudos publicados hoje na revista "Science",
que revelam com precisão inédita a composição do ar em Marte.
Já se desconfiava que o planeta tinha perdido ar no passado, mas ao
analisar detalhes na composição de diferentes gases, cientistas se deram
conta de que a erosão atmosférica inicial foi muito mais brusca do que
se pensava, e só depois se amainou.
Após nascer com uma atmosfera espessa, com pressão centenas de vezes
maior que a da Terra, Marte rapidamente perdeu quase todo seu ar e se
tornou, talvez, parecido com nosso planeta. A erosão continuou, porém, e
hoje o ar marciano é tão rarefeito que sua pressão é de menos de um
centésimo daquela na superfície terrestre.
Os cientistas conseguiram deduzir esse histórico de perda de atmosfera
porque os átomos mais leves de um gás se concentram no alto da
atmosfera, e o vento solar os empurra para fora do planeta com mais
facilidade. A proporção de gás argônio com peso atômico 36 para o
argônio com peso atômico 40, por exemplo, era maior antes de a atmosfera
sofrer erosão.
Cientistas ainda debatem o que pode ter causado essa perda de atmosfera
tão brusca, e isso deve ter a ver com o campo magnético do planeta, que
dependia de um fluxo de magma em seu interior. Caso esse magma tenha se
solidificado, o magnetismo se esvaiu e deixou o planeta exposto ao vento
solar, que era mais forte naquela época. Outra hipótese é a de uma
grande colisão ter desestabilizado o fluxo de magma.
Para Paul Mahaffy, líder de um dos estudos, impactos com asteroides e
cometas podem ter dado conta de afinar a antiga atmosfera marciana.
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Editoria de Arte/Folhapress |
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CONDIÇÕES AMENAS
A missão do Curiosity é investigar a possibilidade de Marte ter tido
condições favoráveis à vida no passado, mas ainda não está claro se a
história da perda precoce da atmosfera do planeta é notícia boa ou ruim
para isso.
Certamente, não é um impeditivo, pois ao menos durante algum tempo a
pressão atmosférica do planeta foi adequada para manter água líquida,
cujo fluxo deixou sinais em rochas. "A questão é quanto tempo essa água
durou", disse Mahaffy à Folha. "É plausível que ela tenha persistido
bastante tempo sob uma atmosfera não tão pesada quanto a inicial."
Chris Webster, líder do outro estudo da Nasa que sai hoje, se diz
otimista. Mesmo que a atmosfera de Marte tenha sido reduzida a um décimo
do tamanho original logo no início, diz, ela ainda teria um valor
razoável, e só ao longo do tempo teria sido encolhida para o valor
atual.
"Houve um período em que a atmosfera de Marte era similar à nossa, e
havia água líquida", diz. "É preciso levar em conta, claro, que a
superfície de Marte é muito cruel, com muita radiação ultravioleta, mas
abaixo da superfície há a possibilidade de ter havido um monte de
ingredientes necessários à vida."
Essas condições amenas, porém, estariam com os dias contados, pois o fim
do campo magnético de Marte o levaria a continuar a perder atmosfera e
pressão.
Em novembro, a Nasa enviará a Marte a sonda Maven, que vai investigar a atual taxa de perda atmosférica.